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20/05/2019 ás 07h48 - atualizada em 20/05/2019 ás 08h01

Moraes Filho

Xinguara / PA

O medo muda de lado após multidão estudantil peitar Bolsonaro
Os jovens tomam as ruas e o presidente vai para as cordas
O medo muda de lado após multidão estudantil peitar Bolsonaro

mobilização dos estudantes e professores tomou o Brasil. De Norte a Sul, o dia 15 de maio reacendeu esperanças e mostrou que, mais cedo do que se imaginava, o medo começou a mudar de lado. O governo autoritário, conhecido pela retórica truculenta, ficou acuado no Palácio do Planalto, vendo seu ministro da Educação ser apertado no Congresso. Enquanto isso, mais de 1 milhão de jovens, professores e cidadãos tomavam as ruas sem medo e em defesa do futuro. Foi gigante.


O clima anunciava-se com a multidão de estudantes no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, juntamente com os Institutos Federais, em protesto contra os cortes na Educação.


Em tempos de graves retrocessos e ataques em série a direitos sociais, é revigorante ver gente que nasceu depois dos anos 2000 tomando as ruas com ousadia e fazendo história.


Esses jovens têm sentido na pele os efeitos da tesoura generalizada do ministro Abraham Weintraub. O bloqueio, que chega em alguns casos a mais de 50% das verbas discricionárias, afeta o funcionamento básico das atividades pedagógicas. Impede do pagamento de água, luz e papel higiênico à compra de materiais para aulas práticas em laboratório e gastos com diárias e transporte. Sem falar nas bolsas de estudo e pesquisa, cujo corte compromete a produção científica nacional. O argumento orçamentário é fraco e contraditório.


Vale uma comparação básica. O conjunto dos cortes na Educação – que também atingem o Ensino Básico – chegou a 7,4 bilhões de reais. A promessa do governo Bolsonaro em emendas para os deputados que votarem pela reforma da Previdência é de 12,3 bilhões. São 40 milhões de reais por deputado e o mínimo de 308 votos. Basta fazer as contas, não precisa sequer de bombons. Mas, sabemos, o problema não é simplesmente matemático. Como dizia há 40 anos Darcy Ribeiro, a crise da Educação no Brasil é um projeto político.


                        


Guilherme Castro Boulos é um professor, psicólogo, ativista, político e escritor brasileiro Filiado ao Partido Socialismo e Liberdade, é membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, sendo reconhecido como uma das principais lideranças da esquerda


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Mas o fato é que um corte dessa magnitude pode implicar, segundo seguidas declarações de reitores e diretores de Institutos Federais, o fechamento dessas instituições, paralisando todas as atividades de ensino e pesquisa e prejudicando a vida de milhões de alunos. Além, é claro, de impactar negativamente na economia local: em torno dessas instituições forma-se uma rede imensa de trabalhadores informais, terceirizados, comerciantes e prestadores de serviço.


Não estamos falando de um grupo pequeno, tampouco “elitizado”. Especificamente em relação aos Institutos Federais, há hoje cerca de 500 mil alunos de Ensino Médio em 644 campus, distribuídos por 78% das microrregiões do País. De Agropecuária a Mecânica Industrial, de Panificação a Petróleo e Gás, de Enfermagem a Finanças, a rede federal oferta centenas de tipos de cursos técnicos de nível médio por todo o Brasil.


Ao contrário da ideia que o governo e as redes de fake news tentam disseminar, esses estudantes têm origem nas camadas populares. Metade das vagas desses institutos é reservada para oriundos de escolas públicas e o perfil de acesso é bastante diverso.


Um estudo do Ipea mostrou que, cinco anos atrás, 52% de seus graduandos faziam parte das classes C, D e E, e 47% eram negros.


Vêm, portanto, de famílias que não têm condições de pagar mensalidades exorbitantes em colégios particulares e sonham em ver suas gerações futuras com diploma nas mãos e empregos qualificados. Sonhos cada vez mais difíceis, dada a nossa situação econômica e as políticas adotadas pelo atual governo. Um terço dos mais de 13 milhões de desempregados tem entre 18 e 24 anos. Com os cortes na educação pública, o governo impede também sua qualificação profissional.


                       


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Para completar o cenário, Paulo Guedes tem como meta uma nova carteira de trabalho, verde-e-amarela, feita especialmente para recém-ingressados no mercado de trabalho. Contumaz bravateiro, promete que a criação de milhões de novos empregos depende da retirada de direitos como férias e 13º salário, além da isenção de contribuição das empresas com o INSS. Tal qual a reforma trabalhista de 2016, uma suposta escolha entre “direito” ou “emprego”, mas que acaba por retirar o primeiro sem garantir o último.


Sem vagas no mercado de trabalho e em universidades, vendendo a ideia de que a sobrevivência só é possível na lógica do cada um por si, tentam impor à nova geração uma perspectiva sombria de futuro individual e coletivo. Quem viveu as ocupações das escolas em 2016 e assistiu a assembleias estudantis nas últimas semanas viu a potência de quando esses jovens se mobilizam e decidem que não aceitarão calados o sacrifício de seus horizontes.


Por Guilherme Boulos

FONTE: CARTA CAPITAL

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