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29/12/2019 ás 17h56

Moraes Filho

Xinguara / PA

SEM PROTESTOS: Jesus morre todo dia de bala perdida ou à porta de hospitais
Volta e meia, o Menino Jesus morre de bala perdida em algum morro do Rio. Ou pisoteado em Paraisópolis, em São Paulo.


Cruz, acompanhada de um rosário, instalada por moradores lembra o massacre de Paraisópolis (Foto: Yago Salles/Metrópoles)


Minhas caras, meus caros,


retomo regulamente o trabalho no dia 20 de janeiro, que é quando reassumo a bancada do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. Volto a escrever na Folha no dia 24. Este blog também entra em rimo de férias, embora a natureza de uma página pessoal seja um tanto distinta. Dificilmente ficarei longe dela todo esse tempo. Passem aqui de vez em quando. É possível que a gente se encontre.


Este é um post que tem o propósito de lhes desejar um ótimo Natal. E de expressar bons augúrios para o 2020 que vem por aí.


Sim, é preciso chamar as coisas pelo nome que têm mesmo em datas como esta. Os obscurantistas estão sendo acossados pelo próprio passado, mas isso não quer dizer que se deva rebaixar a vigilância. Eventos de peso realmente histórico — história havida, mas ainda a ser contada — e circunstâncias banais nos empurraram para um pântano moral e ético sob o pretexto do triunfo da moral e da ética.


Os verdugos da ordem democrática e do estado de direito ainda vestem a pele de demiurgos. É preciso desmascará-los. Se seremos ou não bem-sucedidos nesse intento, bem, não posso assegurar. Garanto disposição para tal tarefa civilizatória.


Será muito difícil vencer os múltiplos apelos à barbárie. Particularmente porque o discurso da truculência sequestrou, de um lado, setores consideráveis das elites, que o veem como um atalho para o que chamam "modernização da economia"; na outra ponta, a resposta violenta a vários esgarçamentos da vida social, cujas vítimas são os mais pobres, capturam parte dessa mesma pobreza para as respostas simples e erradas para problemas difíceis.


Estão equivocados todos aqueles que apontam estes dias como a derrota histórica das esquerdas — antevendo mesmo a sua derrocada definitiva. Não tenho como não apelar ao tempo — sem poder, por óbvio, exibir a prova — para evidenciar esse erro. E o erro de análise, pois, chegará… a seu tempo.


Os verdadeiros derrotados da jornada que vivemos — no Brasil e, em muitos aspectos, no mundo — são os liberais. Todos aqueles que ansiavam por mais sociedade e menos Estado; por mais liberdades públicas e menos interferência do Leviatã criador de mundos; por mais responsabilidade individual e menos dogmas coletivistas… Bem, estes todos PERDEMOS. Reparem na pessoa do verbo.


E não! Não foram as esquerdas que impuseram o viés da truculência estatal contra as liberdades públicas, contra a responsabilidade individual e contra uma sociedade mais autônoma. Várias correntes de um tipo de direita cuja origem histórica é, sim, o fascismo resolveram se conjurar contra a globalização que liberta porque universaliza direitos; contra a diversidade cultural e individual porque desconstrói a mitologia da ordem; contra a hierarquia da democracia porque esta repele a pressão das hordas.


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Boa parte dos nossos ditos liberais era formada por reacionários delirantes.


Os arautos dessa nova ordem — que é uma soma de retalhos de experiências que foram duramente vencidas pela democracia — têm como aliadas as milícias digitais que se formam nas redes sociais, cujos principais inimigos são a razão, a ciência e a técnica. O triunfo da vontade reivindica o estatuto de um novo saber e pretende reduzir a democracia ao veredito de maiorias de ocasião, ancoradas em mentiras influentes.


Sim, é um tempo de resistência. "Navegar é preciso; viver não é preciso". A frase de Pompeu, segundo Plutarco, tinha mesmo o sentido com que é habitualmente lida. "Preciso", aí, quer dizer "necessário" — "Navigare necesse; vivere non est necesse". Era uma forma de encorajar os marinheiros. Fernando Pessoa a retomou em texto e fez o seu próprio lema: "Viver não é necessário; o que é necessário é criar".


Eu a resgato aqui naquela que sempre foi a minha leitura derivada — e também a de outros: "Navegar é um ato de precisão porque conta com um acúmulo de saberes. Viver, no entanto, é impreciso porque mesmo a experiência acumulada não nos livra da indeterminação do presente e, por óbvio, no futuro".


Nessa imprecisão estão nossa grandeza e também a nossa dor.


Aos que não se deixaram seduzir pelas facilidades da pregação fascistoide, a minha saudação e o meu aceno de comunhão em nome e em defesa das diferenças.


Os tempos são perversos. O cristo gay, personagem de ficção de um grupo de humoristas, desperta a ira de certo tipo de piedoso que vê, indiferente, o filho de Deus ser morto, uma segunda vez, sem atendimento, às portas do Centro de Emergência Regional da rua Frei Caneca, no Centro do Rio.


Volta e meia, o Menino Jesus morre de bala perdida em algum morro do Rio. Ou pisoteado em Paraisópolis, em São Paulo. E então me ocorre um trecho de Drummond, em que um brasileiro indignado está a falar com Deus:
"Fosse eu Vieira
(o padre) e vos diria, malcriado,
muitas e boas… mas sou vosso fã
omisso, pecador, bem brasileiro.
Comigo é na macia, no veludo/lã
e matreiro, rogo, não
ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre)
mas ao Deus que Bandeira, com carinho
botou em verso: "meu Jesus Cristinho"
.


Jesus Cristinho não está na sanha censória e excludente dos fanáticos, que podem apelar ao terrorismo para fazer valer sua concepção religiosa. Jesus Cristinho rechaça o Senhor Deus dos Exércitos e dos coquetéis Molotov. Deus me livre! E rechaça os que, sob qualquer pretexto, fazem a apologia da morte. Porque a morte de um homem — de qualquer homem — sempre será um pouco da morte de Deus.


Resistamos!


Reinaldo Azevedo


** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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