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Xuxa Meneghel: “Fui usada e roubada”

A apresentadora diz que, depois de passar boa parte da vida sendo explorada, agora celebra a maturidade, que lhe permite ser — e falar — o que quiser

30/01/2021 23h03 Atualizada há 1 mês
Por: Redação Integrada Fonte: VEJA
 Blad Meneghel/.
Blad Meneghel/.

Aos 57 anos e quarenta de carreira, Xuxa Meneghel tem mostrado uma faceta cada vez mais surpreendente para o público. Dona de si e mais madura, ela defende bandeiras como a união homoafetiva, fala abertamente sobre os sucessivos abusos que sofreu e não foge de polêmicas. “Não fico mais quietinha porque isso pode não ser bom para a minha imagem”, declara. Da época em que não tinha voz ativa e obedecia a ordens, restou a constatação de que foi manipulada não só por Marlene Mattos, a empresária de quem se afastou, mas por muitas das pessoas à sua volta. “Fui inocente, burra mesmo”, admite. Por meio de um aplicativo de vídeo, a apresentadora, que tem 22 pássaros soltos na sala, falou ainda a VEJA sobre projetos, namoros, envelhecimento e o desejo de adotar uma criança. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Seu livro infantil, Maya, conta a história de uma menina que é filha de duas mulheres. Já teve alguma relação homossexual? Sempre falaram muito sobre isso, mas nunca me senti atraída por uma mulher. Se acontecer, todo mundo vai saber. Agora, é impressionante o número de críticas de pessoas públicas e ataques na internet que recebi por causa do livro. Fico envergonhada de ver que neste ponto, em vez de evoluir, estamos em decadência.

A senhora revelou ter sofrido abusos sexuais dos 4 aos 13 anos. É um trauma que ainda assombra? Tenho mania de limpeza. Chego a tomar sete banhos por dia e associo isso aos abusos. O primeiro caso aconteceu em casa. Estava dormindo e, ao acordar, tinha algo na boca que pensei ser xixi, mas era esperma. Houve outros episódios, como um parente que introduziu os dedos em minha vagina e um professor que se masturbou na minha frente. Na época, o medo e a culpa me impediam de reagir. Só consegui interromper essa série de abusos quando um amigo do meu pai tentou levantar minha blusa. Criei coragem, disse não e nunca mais me sujeitei a isso.

E na TV, sofreu algum assédio? Antes de ser famosa, fiz figuração, aos 17 anos, no programa Planeta dos Homens. Ouvi do diretor que, se não transasse com ele, não precisava voltar. Não voltei. Prestes a estrear o Xou da Xuxa, a Globo me indicou quatro diretores e ele estava na lista. Contei a proposta que ele tinha feito e essa pessoa acabou saindo da emissora.

Também passou por momentos constrangedores quando era modelo? Vivi situações pesadas. Ainda menor de idade, fui convidada para um trabalho envolvendo sessão de fotos nos Estados Unidos. Na conexão, puxei papo com um brasileiro que, preocupado comigo, deu o telefone da secretária dele e disse para ligar se tivesse uma emergência. Ao chegar, fui levada para um quarto de hotel, com um soldado armado na porta. Não havia foto alguma, era um programa disfarçado. Foi essa secretária que me salvou da armadilha.

Acha que seu namoro com Pelé, quando era muito nova, também teve um componente abusivo? Na época não via assim, mas óbvio que tinha. Se a minha filha tivesse uma relação como aquela, diria que o cara é louco. Quem o conhece bem sabe que tem dupla personalidade. Dizia que as mulheres davam em cima do Pelé e que, por isso, precisava sair com elas. Mas foi minha primeira paixão, dos 17 aos 23 anos.

“Se eu falasse que não fui manipulada pela Marlene, seria mentira. Mas tenho de deixar claro que eu permiti. Era cômodo ter alguém organizando minha vida profissional, pessoal e até afetiva”

A senhora comentou que Marlene Mattos, sua empresária durante décadas, restringia sua liberdade. Foi manipulada por ela? Se eu falasse que não fui manipulada, estaria mentindo. Mas preciso deixar claro que eu permiti. Era cômodo ter alguém organizando tudo da minha vida profissional, pessoal e até afetiva. Chegou a um ponto em que ela decidia como eu deveria falar, vestir e até namorar. “Entre ele e o trabalho, tem que escolher o segundo”, dizia. E eu obedecia. Nem eu sei como me sujeitei a tudo isso e por tanto tempo.

Antes de assumir o controle de sua carreira e negócios, levou muitos golpes? Olha, eu poderia ser duas ou três vezes mais rica. Fui tudo o que as pessoas imaginam: enganada, usada, manipulada, roubada. Quando falo disso, vem logo a imagem da Marlene, mas não foi só ela. Insisto em dizer que confiei demais em todas as pessoas próximas a mim. Fui passada para trás por coreógrafo, maquiador, fotógrafo. Digo, sem vergonha, que fui inocente, boba, burra mesmo.

A senhora conseguiu durante anos evitar a exibição do filme Amor Estranho Amor, em que sua personagem seduz um menino de 12 anos. Foi um erro tentar esconder as cenas? As pessoas resumem essa história em uma frase: “Xuxa é pedófila”. Mas me arrependo, sim, de ter dificultado a exibição, atendendo às recomendações dos meus assessores. Ninguém presta atenção ao fato de que minha personagem, que tinha 15 anos na tela, dois a menos do que eu na época, havia sido comprada pelo dono do prostíbulo e também era vítima. Inclusive, incentivei a Sasha a assistir.

É verdade que Michael Jackson quis que fosse a mãe dos filhos dele? Depois de tê-lo conhecido em um show, visitei o famoso rancho Neverland com o meu empresário. Fiquei surpresa de ver quanto ele sabia sobre mim: que não comia carne, que não gostava de sal nem de álcool. Na saída, seu agente entregou um contrato e disse: “O Michael gostaria que você levasse no ventre os filhos dele, quer juntar as Américas”. Nem respondi.

Como avalia hoje o namoro com Ayrton Senna? Beco foi a pessoa certa no momento errado. Ele queria alguém que vivesse a vida dele, acompanhando-o nas corridas. Eu queria alguém sempre ao meu lado. Sua morte me mostrou a importância de viver cada vez mais o presente.

É assim que se relaciona com Junno Andrade, seu companheiro há nove anos? Depois de ter priorizado o trabalho por tanto tempo, tenho a chance de viver um relacionamento 100%. O Ju ainda tem casa em São Paulo, mas estamos juntos quase todos os dias. A gente se agarra demais, beija demais, ri demais e transa demais.

Gosta muito de sexo? Gostar, eu gosto de chocolate. Sexo eu adoro.

Suas entrevistas são cada vez mais francas, inclusive tocando em assuntos políticos. A idade destrava a língua? Ela traz, sobretudo, intolerância com certas coisas. Não vou mais ficar quietinha porque isso pode não ser bom para a minha imagem ou o governo pode não gostar. Se não me posicionar, estarei batendo palma para maluco. É vergonhoso o que estamos vivendo.

É difícil envelhecer diante do público? Claro que é. As pessoas não precisam ficar repetindo que a Xuxa está velha. Tenho espelho em casa e vejo as rugas. No dia em que não aguentar mais as pelancas, talvez faça uma plástica.

A senhora já teve crise de ansiedade ou depressão? Por que não faz terapia? Pouca gente sabe, mas tive depressão pós-parto. No início, achei que era porque não conseguia emagrecer, mas se tratava de um problema hormonal. Passei um período chorando por tudo. A questão é que tive uma experiência ruim com terapia aos 23 anos, quando também fui assediada. A terapeuta me induziu a relaxar e, quando despertei, ela estava tocando meu seio. Nunca mais fiz.

Já tomou um porre ou experimentou drogas? Tenho intolerância a álcool. Quando o Beco morreu, tomei um copo de vinho e fiquei bêbada. Na doença da minha mãe, ela usou maconha medicinal para o Parkinson e minha filha perguntou se eu tinha curiosidade de provar. Disse que não. Aliás, sempre querem saber se a Sasha fuma maconha. Não fuma. Ela própria me contou que já provou, mas não é a dela. Inclusive, agora virou evangélica, religiosa ao extremo.

Como é sua relação com a fé? Fui criada no catolicismo, mas digo que minha religião é Deus. As pessoas podem duvidar, mas ele fala comigo. Se não forem de Deus, são de um anjo as vozes que eu escuto. Quando vou pegar um avião e as ouço dizendo que não devo, eu cancelo a viagem. Podem me chamar de maluca, mas já vi duendes. Um deles apareceu no sítio que eu tinha e puxou meu lençol. Em um aniversário meu também vi fadas. Até chamei a Sasha para ver também.

O seu contrato com a Record terminou em dezembro, em meio a rumores de tensão em relação a temas rejeitados pela igreja que é dona do canal. Houve censura mesmo? Nestes cinco anos, a direção teve um cuidado especial comigo e vivia perguntando: “Está feliz? Se está, também estamos”. Mas todos sabem que existe uma filosofia, uma doutrina na Record. Não tinha censura direta, mas me falavam que era de bom grado não usar decotes ou crucifixo, por exemplo. No final, considero o saldo positivo.

“A idade traz intolerância para certas coisas. Não vou ficar quietinha porque é bom para a minha imagem ou o governo pode não gostar. Se não me posicionar, estarei batendo palma para maluco”

A senhora tem aparecido em vários programas da Globo. Está preparando uma volta? Não. No momento não há nada. Mas estou tocando vários projetos. Tenho conversas adiantadas com a Endemol e a Globoplay para a realização de um documentário, O Último Voo da Nave. Ia ser baseado em três shows que eu faria e que a pandemia tornou inviáveis. Agora, será feito com imagens minhas do passado.

Outro projeto é uma série que contará sua história? Sim, estou envolvida com ela há quase dois anos. Vai se chamar Rainha. Estamos negociando com uma plataforma de streaming e já na fase de seleção das atrizes que farão o papel de Xuxa. Além disso, planejo com a Disney+ outra série, essa voltada para a família. Posso adiantar que gostaria de ter comigo a Angélica e a Eliana. Só depende delas.

Tem planos de se aposentar? Aposentadoria é um termo pesado. Penso mais para a frente em abandonar minhas botas, deixar de fazer televisão. E em envelhecer em um lugar tranquilo, que pode ser a Toscana, na Itália. É um plano para daqui a dois, três anos. Estou vendendo minha casa na Barra porque, sem a minha mãe e com a Sasha independente, não preciso de tanto espaço.

Ainda tem um grande sonho? Não é novidade que quero ser avó. A Sasha está apaixonada, e isso talvez aconteça daqui a um tempo. Agora ela passará três meses na África, para onde tenho ido algumas vezes. Tanto ela quanto eu temos vontade de adotar uma criança. Se houver um encontro, se bater no meu coração, pode ser que a minha mochilinha aumente.

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