Quarta, 22 de Setembro de 2021
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Colunistas CRÔNICA

Jacinto e as couves

- De hoje em diante não quero mais saber de dinheiro, vou viver lá no fundo do quintal e vou comer apenas o que eu mesmo plantar...

26/07/2021 às 08h19 Atualizada em 26/07/2021 às 08h53
Por: Redação Integrada Fonte: Rodrigo Alves de Carvalho
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Couve Pinterest
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Jacinto apenas ouvia a conversa da família enquanto almoçavam naquele domingo. Falava pouco, até porque não tinha muito o que falar, já que o assunto era sempre sobre compras, carros, roupas, festas e dinheiro, principalmente, dinheiro.

Sabia da boa situação financeira de seu pai e seus irmãos, mas como é de regra: Quem tem, sempre quer ter mais. E Jacinto andava de saco cheio daquele: “Dinheiro é tudo na vida”, pois o jovem era completamente avesso ao status e nunca ligou para bens materiais.

A família é claro estanhava, mas o rapaz era trabalhador, mesmo largando os estudos no colegial, sempre ajudava o pai na pequena empresa de beneficiamento de fios.

- De hoje em diante não quero mais saber de dinheiro, vou viver lá no fundo do quintal e vou comer apenas o que eu mesmo plantar, não usarei nada que o dinheiro compre!

Da até pra imaginar a indignação da família e amigos ao ouvirem essas palavras, mas achando que tudo aquilo não passava de um lapso de loucura ou rebeldia, não ligaram muito.

 Rodrigo Alves de Carvalho

Jacinto decidido se mudou para o fundo do quintal, onde armou uma pequena barraca, cavou uma fossa mais pro fundo e aumentou a sua pequena plantação de couve.

A vida mudou completamente, ficava o dia inteiro à procura de lenha para seu pequeno fogão de barro, buscava água numa bica perto do lago da cidade e cuidava atenciosamente da plantação de couve.

Sua preocupação maior era com as constantes borboletas que apareciam no quintal e o medo de uma devastação de marandová. Arrumou um pedaço de borracha e a toda hora corria atrás das coloridas borboletas como quem protege seu maior tesouro, ou seja, as couves.

E assim prosseguiu por vários dias, Jacinto comia de tudo, e tudo para ele era a couve: Couve refogada, salada de couve, sopa de couve, suco de couve...

Enquanto isso seus irmãos se davam bem, um deles até comprou um carro importado, o outro conseguiu um apartamento na praia; e para jacinto tudo o que possuía era um pedaço de borracha e a plantação de couve.

Num dia chuvoso, um dos irmãos de Jacinto o encontrou caído ao lado da barraca, no meio da chuva. Foi logo levado ao hospital onde se constatou que estava desnutrido e anêmico.

Ficou no hospital por dois dias tomando soro e medicamentos.

No terceiro dia a enfermeira chega ao quarto de Jacinto onde o encontra já corado e com um pequeno sorriso no rosto:

- Muito bem senhor Jacinto, o senhor já está quase bom, agora é a hora de comer alguma coisa com sustância. O que está com vontade de comer?

Jacinto pensa um pouco e responde num supetão:

- A senhora não teria uma saladinha de couve? Teria? 

Rodrigo Alves de Carvalho nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores.

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