Domingo, 26 de Junho de 2022
Colunistas A TERCEIRA VIA

'Terceira via' morre sem nunca ter nascido

Para ser mais preciso, a terceira via nunca passou de um devaneio ou de um desejo de parte de nosso combalido debate político que se apoia em malabarismos retóricos para igualar Lula e Bolsonaro

31/03/2022 às 20h05 Atualizada em 31/03/2022 às 20h14
Por: Redação Integrada Fonte: * Igor Tadeu Camilo Rocha UOL
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Sergio MoroImagem: Alexandre Meneghini/Reuters
Sergio MoroImagem: Alexandre Meneghini/Reuters

A quinta-feira foi movimentada para os rumos da chamada "terceira via" da corrida eleitoral. João Doria (PSDB), que por um momento foi dado como um ex-pré-candidato à Presidência, foi convencido a recuar de sua decisão e manter, oficialmente, a sua pré-candidatura ao Planalto. Já Sergio Moro, agora filiado ao União Brasil, desistiu da corrida e deve anunciar a sua candidatura à Câmara por São Paulo. Sem Moro e com um PSDB mais rachado do que nunca, acaba de morrer quem, de fato, nunca existiu, a chamada "terceira via".

Para ser mais preciso, a terceira via nunca passou de um devaneio ou de um desejo de parte de nosso combalido debate político que se apoia em malabarismos retóricos para igualar Lula e Bolsonaro. Muitos desses devaneios, cabe ressaltar, são produtos, de um lado, de uma repulsa quase irracional a tudo que lembre a esquerda no espectro político e, de outro, a certo arrependimento por ter escolhido Bolsonaro — ou de ter visto no segundo turno "uma escolha muito difícil" — em 2018.

Antes de continuar, uma breve ressalva. Há outras vias, não somente uma "terceira", dentre os vários postulantes à Presidência ou a algum protagonismo na cena política brasileira, como sempre houve. Não, nunca nosso cenário político-partidário ficou reduzido a Bolsonaro e PT, embora uma polarização na disputa política seja real dentro do atual cenário.

Dentre as outras vias, podemos citar Ciro Gomes (PDT), e sua tentativa de reintroduzir o desenvolvimentismo, repaginado e atualizado, como projeto político no Brasil; existem figuras como Guilherme Boulos e o PSOL que, apesar dos movimentos recentes em direção ao petismo, representam ainda (ao menos eleitoralmente e em parte das militâncias) uma crítica à esquerda do PT e de seus governos; existem projetos mais radicais à esquerda, como a Unidade Popular (UP), além de vários partidos de uma direita liberal; enfim, há outras opções e não é meu objetivo me alongar nelas.

A questão é que em democracias pluripartidárias como a nossa sempre há muitas opções e várias vias, embora uma série de condicionantes as reduzam. Há as próprias contradições dessas regras políticas e das próprias sociedades nas quais ocorrem as democracias liberais sob o capitalismo, além de questões colocadas pela conjuntura de cada contexto e momento.

Especificamente quanto a Moro e Doria, considerando nossas contradições e nossa conjuntura, é possível dizer que as suas postulações à terceira via representaram nada mais que uma disputa por protagonismo no interior das direitas, reduzindo a ruptura com o bolsonarismo ao campo da retórica e falhando em apresentar soluções para questões importantes colocadas ao país na atualidade, o que explica seus irrelevantes números nas pesquisas diante de suas pretensões. As trajetórias de ambos rumo ao quadro atual podem nos esclarecer alguns pontos sobre isso.

Doria, a meu ver, é a cara atual do PSDB, partido que surgiu nos anos 1980 como uma alternativa progressista para se combater o pemedebismo e seu comportamento fisiológico. Após as perdas de eleições para Lula e, em 2010, para Dilma Rousseff, o partido parece ter optado por uma guinada da centro-direita para a direita, acolhendo toda sorte de figuras e discursos que não necessariamente condizem com sua história e papel na redemocratização. A própria ruptura do pacto frágil que chamamos de Nova República, com o impeachment de 2016 e a eleição de Bolsonaro em 2018, teve forte participação do PSDB.

A crise recente entre Doria e Eduardo Leite — este último apoiado por Aécio Neves, antagonista do governador de São Paulo dentro do partido — mostra um PSDB perdido, que na prática acaba defendendo uma agenda similar à do governo federal, mas que insiste em ser uma oposição na retórica. Mesmo com a direção do partido tendo anunciado uma ruptura com o governo Bolsonaro em 2021, na prática, o governismo da bancada tucana acabou se ampliando, o que revela muito do atual estado do partido.

Num momento em que a disputa por capital político está diretamente associada a um claro posicionamento a favor ou contrário ao bolsonarismo, assim como a um posicionamento a respeito de soluções concretas para problemas como a inflação e a fome, o PSDB ocupa hoje um "não-lugar", já que, entre o discurso e a prática, acumulam-se contradições, além de um deserto de propostas claras para o país.

Doria, propriamente, foi eleito em 2018 trazendo para o centro de sua campanha o apoio a Bolsonaro, expresso no slogan "Bolsodoria", mostrando que o político, como muitos, se aproveitou da onda conservadora que tomou o Brasil desde a metade da última década. A ruptura veio somente no transcorrer da pandemia de covid-19, na qual o governador de São Paulo procurou polarizar contra a agenda negacionista do governo federal. Contudo, isso se mostrou eleitoralmente pouco relevante, ao menos em nível nacional.

Moro, por sua vez, surgiu na política como aquele que iria salvar o Brasil de um sistema absolutamente corrupto com o qual o país deveria romper para seguir em frente. E, agora, seguirá a sua trajetória no União Brasil — que nada mais é que a junção do DEM e dissidentes do PSL, Centrão e extrema direita, respectivamente. Dito de outro modo, após se vender como um "outsider", Moro terminará abraçado com a direita fisiológica mais entranhada nas estruturas políticas do Brasil, tão "insider" quanto qualquer Eduardo Cunha ou Arthur Lira.

A filiação de Moro ao União Brasil consolida, também, um outro padrão de políticos do Centrão, que consiste em se filiar ou desfiliar de partidos sem qualquer critério, reduzindo siglas partidárias a uma mera formalidade, como revelam os pouco mais de seis meses de sua nada memorável passagem pelo Podemos.

Moro começou sua passagem pelo governo Bolsonaro, do qual foi ministro da Justiça até abril de 2020, como uma espécie de reserva técnica — em meio a muitos olavistas — e moral — pelo legado da Lava Jato. Parte da imprensa e analistas acreditava em figuras como ele para poder conter Bolsonaro de qualquer tipo de arroubo, algo que racionalizava e suavizava a escolha de muitos por um presidente claramente antidemocrático desde o início de sua vida pública.

Porém, na medida em que as alas técnicas ou ideológicas do governo mostraram ser uma coisa só, além do dito legado moral de Moro ter sido corroído pela série de reportagens da Vaza Jato, muitos complicadores se impuseram diante do ex-juiz, que era colocado nas pesquisas de intenção de voto para presidente já em 2019.

Moro, no governo ou rompido formalmente com ele, jamais apresentou soluções objetivas para problemas reais que assolam a população brasileira em toda a sua trajetória como pré-candidato, até agora. Na verdade, se impôs, isoladamente, a sua pauta monotemática, a corrupção. Poderia até ganhar a eleição se apenas o que resta de uma classe média apoiadora do lavajatismo votasse, o que não é — e espero que nunca seja — o caso.

Concluindo, para Moro e Doria, assim como para a maior parte do que se pensou ser uma terceira via, não existe e nunca existiu nada de substantivo que lhes gerasse adesão e votos suficientes para se elegerem à Presidência. Reforço que quanto à terceira via, aqui, me refiro ao "wishful thinking" de setores das direitas liberais brasileiras que construíram uma terceira via segundo seu viés ideológico — o que não é um problema —, mas sem a devida observação da nossa realidade política — o que é um problema dos grandes.

Esses setores queriam na Presidência um lavajatismo ou um PSDB repaginado, para que, com algum respeito à liturgia do cargo de presidente da República, pudessem conduzir a mesma agenda político-econômica do governo Bolsonaro. No momento, nada feito. Esqueceram de combinar com o Brasil real.

* Igor Tadeu Camilo Rocha é doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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